Cartas de São Tiago…

Já visse uma cidade onde todos os candidatos a cargos eletivos são honestos, capacitados, inteligentes e que conhecem com profundidade os problemas sociais? Pois bem, São Tiago não é essa cidade. Tudo acontece em São Tiago.

Tudo tem um começo: e a vida de um eleitor de São Tiago começa aos dezesseis anos. Antes, é apenas um jovem perdido no mundo do esquecimento eleitoral, como a escola, o lazer e a cultura. Com 16 anos, ele passa a ter responsabilidades e direitos, como votar nos honestos e competentes vereadores da cidade. É uma ofensa aos pais e aos “padrinhos” não terminar a puberdade aos 16 anos. – Já és homem, meu filho! é o que mais se ouve no aniversário dos moleques. Mesmo a voz ainda de criança, fina e sem expressão, assume categoricamente uma forma de masculinidade ainda desprovida de comprovação científica, moral e social, mas apenas eleitoral. Um moleque que ontem jogava Winning Eleven, hoje tem que ser mais um que decide sobre o futuro da poderosa cidade de São Tiago.

Se os mais novos fazem a sua parte, os mais velhos dão o exemplo: É comum que todos, isso mesmo, todos os idosos da cidade votem. O costume de trocar favores por votos é do tempo que eles eram moleques, e ritualisticamente se repete de dois em dois anos. Num ritmo suave, sem nenhuma alteração do fenômeno. Toda santa eleição, sem assustar os velhinhos, que não estão acostumados a mudança. O cheiro de bucolismo ainda está no ar.

Os vereadores são apelidados de contabilistas: por que, você me pergunta: simples, todos se especializaram em contabilizar votos. Claro que todos os vereadores do mundo fazem isso. Mas aqui vai além: o título de eleitor fica com os vereadores. Eles cuidam de tudo na cidade, inclusive dos documentos de todos. Os números precisam smpre conferir com a quantidade de títulos. Caso haja erro de calculo, pode custar a cabeça de algumas pessoas na cidade.

Votar sempre foi um desafio para os eleitores de São Tiago. Todos acordam cedo – há uma disputa para ver quem será o presidente da sessão eleitoral da cidade. É a única forma de alguém ter o controle de todo o processo eleitoral. Em São Tiago, os eleitores e os mesários estão todos devidamente identificados, todos sabem quem são e o que fazem da vida e cumprem com o destino – votar sempre nos mesmos. Já aconteceu caso de mesário pedir voto para o irmão que é prefeito da cidade, teve presidente de sessão que prendeu candidato da oposição por apenas votar na sessão, como também a suspeita de uma urna ter mais do que 500 votos, sabendo-se que naquela urna deveriam votar 35. Como pode parecer estranho, nem a matemática é levada a sério em São Tiago.

Como eu não poderia esquecer, devo-lhes falar dos decentes candidatos da cidade. Para prefeito, temos dois fortíssimos candidatos. Seu Francisco, reconhecido homem de posses e que ostenta uma moralidade imbativel, mesmo nos bordéis da cidade e nos seus cinco filhos espalhados pela cidade – até agora diagnosticados. Seu concorrente é o sr Manoel, outro homem de posses, que fez fama sendo dono da única farmácia, da única lan house e do único supermercado da cidade. Sua moralidade é tão pura quanto de uma virgem que teve sete filhos.

Os vereadores são escolhido a dedo na cidade – tem motorista de taxi que faz translado de graça, tem farmacéutico que indica sonrisal para combater a pancreatite de um adversário, tem o professor que dá aulas sobre educação sexual fora do expediente com turmas reduzidíssimas, tem também (não posso esquecer) do ginecologista que tem 24 filhos registrados, e também do padre “Pinga”, da Dama da Noite, do Sindicalista Cutiano e, por último, o fortíssimo Ademastor, um fazendeiro que gera oportunidade de emprego para jovens que tem sonhos tão inocentes quanto desejos ainda pré-puberdadianos.

Sabes, meu amigo leitor, que São Tiago terá mais uma eleição de cartas marcadas, de alvos fáceis e de sonhos que não são destruídos aqui, por que sonhar já é luxo para poucos.

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~ por professormateus em junho 30, 2008.

Uma resposta to “Cartas de São Tiago…”

  1. Bem legal Teteu… Massa! de onde veio inspiração pra escrever isso? Nossa, e como arrumaste tempo? Ah, olha só… nao entendi o que quiseste dizer com “O cheiro de bucolismo ainda está no ar” Beijos, saudades…

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